22/09/2010

Lula e FHC são sumariamente executados

 Texto de opinião do filósofo (*) Paulo Ghiraldelli Jr.

A OAB está errada em sua tentativa de barrar Gil Vicente. Não porque a arte, para iluministas que, enfim, espera-se que seja o caso de advogados, deva ser antes protegida que atacada pelo estado de direito. Isso é uma verdade, é certo, mas com o adendo de que há muita coisa a ser pensada caso a caso. Gil Vicente não deve ser barrado em sua série “Inimigos” não só na Vigésima Nona Bienal de S. Paulo, mas em qualquer outra exposição, por uma razão exclusivamente estético-moral: sua obra não incentiva a violência, ela promove a catarse. No limite, Gil Vicente inaugura um movimento pela paz. Pois a catarse é exatamente uma parente da sublimação – uma sublimação em direção a uma maior possibilidade de compreensão de nossas mazelas.
A catarse por meio da arte está fora de moda, eu sei disso. Ela era pedida por Aristóteles . Ora, ninguém mais dá a mínima para Aristóteles quando ele fala de arte. Nenhum outro filósofo se importou com ela.  Além disso, Aristóteles a via funcional no teatro, especificamente na tragédia, e não nas artes plásticas. Todavia, Gil Vicente a coloca de volta por meio  da prancha e do carvão.  Aliás,  melhor ainda que no teatro! Melhor a catarse desterritorializada,  hoje, do que no teatro, onde já estaríamos de sobreaviso e, por conta disso, poderíamos anulá-la.
Na sua série “Inimigos”, nos extremamente fecundos quadros a carvão em estilo quase de HQ, usando de um traço bastante pertinente para o caso, Gil Vicente nos coloca no centro das decisões que deveríamos ter tomado, a de não deixar a vida pública ter sido povoada por crápulas.  A perspectiva escolhida, o ambiente e a posição ocupada por ele próprio em cada gravura, nos chamam para as cenas. Tudo estudado para a obtenção do gozo máximo e para a reflexão provinda do êxtase e, porque não dizer, do choque. Ele é o Tarantino de “Bastardo Inglórios” dando a oportunidade de matarmos nossos Hitlers. Ninguém pegou Hitler como todos não não pegamos esses inimigos aí postos sabiamente por Vicente – mas temos de nos ver agarrando-os para nos purificar de dois grandes pecados: um primeiro, que é o de  não ter conseguido nunca eliminá-los da vida pública,  um segundo, que é o de termos nos envolvido com eles, nos manchando das fezes que manipularam. Catarse é, também, purificação.
Mas Gil Vicente não é só primoroso na escolha dos executados e na confecção da expressão de cada um, ele é genial na idéia das armas das execuções. Todos estão sob a mira de arma de fogo, que ele empunha de modo apropriado, significativo e meticulosamente articulado com a personalidade do candidato a executado. Todavia, um dos “inimigos” não é posto sob a mira do revólver, mas está sendo degolado por meio de faca: Lula. É divino ver que a imaginação de Gil Vicente , que não pasteuriza nenhum dos quadros. Afinal, quem mataria Lula com um tiro? Talvez a banha protegesse a figura. Além do mais, só sindicalista americano, com ligação com a máfia e a CIA, poderia morrer de tiro. Isso daria o que sempre deu, um filme de gangsters. Um sindicalista brasileiro de origens no caminhão de Pau de Arara, traidor da ética que propagandeou, teria mesmo de morrer como em uma vendeta: com a garganta cortada por uma coisa meio que nordestina – uma peixeira! Efeito catártico que respeita a diversidade!
O fato da OAB se colocar contra Gil Vicente vai lhe dar mais prestígio ainda, embora ele não precise disso para ser o que é – brilhante. Mas, ao mesmo tempo, temos agora a certeza que a OAB há muito deixou de ser o que deveria ser. Talvez as estatísticas estejam erradas. Afirma-se que há muitos formados em faculdade de Direito que não passam no Exame da Ordem, que o exame está difícil para os atuais formados como advogados. Pode ser mentira isso, pois as pessoas que estão contra Gil Vicente, nesse órgão, passaram no tal exame e, no entanto, não estão demonstrando ter qualquer capacidade cultural requerida para ficarem à frente da entidade, a própria OAB. Eles faltaram na aula de filosofia a respeito de “liberalismo, tolerância e meios de comunicação”? Sim! mas faltaram, também, em todas de filosofia. Aliás, há ainda filosofia nas faculdades de Direito?


(*) Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Veja estas e outras imagens em alta resolução aqui.

 Fonte: Blog do Filósofo em 21/09/2010